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domingo, 21 de julho de 2013

o jornalismo, a TV e eu

a primeira vez que quis ser jornalista foi depois de assistir Íntimo e Pessoal, filme no qual Michelle Pfeiffer faz o papel de uma aspirante a repórter de TV em começo de carreira. aquela adrenalina de ir atrás da história e conta-la antes (ou diferente) de qualquer outra pessoa me encantou. 7 anos depois, eu entrava na faculdade de comunicação da UFRJ com o mesmo sonho. essa ideia foi ganhando forma na medida em que eu consumia mais e mais notícias, assistia telejornais, experimentava nas aulas e a minha versão de glamour não era ser modelo, atriz ou qualquer coisa do gênero. minha idealização juvenil se parecia com a Christiane Amanpour cobrindo a guerra da Bósnia. não à toa, meu primeiro contato com a profissão foi numa rede de televisão - que estava mais para programas de moda e culinária do que conflitos do oriente médio, diga-se de passagem. com o tempo, a vida e minhas escolhas levaram a caminhos diferentes, e hoje sei muito mais sobre ferramentas de busca, navegadores e internet móvel do que jamais imaginei. em comum, a velocidade com que as coisas acontecem, a necessidade de tomar decisões rápidas - a maioria baseada apenas no seu bom julgamento -, a diversidade de assuntos sobre os quais você precisa ser capaz de saber pelo menos o mais importante. no fundo, vive a a alma de jornalista. 

talvez para matar um pouco as saudades, ou talvez porque eu goste mesmo de seriados, comecei (e já terminei a 1a temporada) a assistir The Newsroom, drama político que narra os bastidores de um telejornal americano. como a mesma adolescente que se encantou pela profissão, me tomo de amores pela proposta da Mac e do Will de transformarem a forma como se faz notícia e me empolgo com frases do tipo: "nós não declaramos a morte de uma pessoa, o médico faz isso". entendo todas as críticas e até a ingenuidade do autor da série, mas não consigo pensar em momento mais propício para se discutir o que informações estamos consumindo. em uma época dos smartphones, das redes sociais e da falência de tantos veículos, o que a televisão está fazendo para se reinventar? os produtores nunca tiveram tanto acesso a fontes, testemunhas, personagens, mas assistimos, todas as noites, matérias que repetem uma fórmula datada. possivelmente o exemplo mais palpável disso seja a cobertura recente dos protestos no país. admiro o esforço de todos os colegas que se misturaram aos conflitos para entregar a história, mas não dá para negar a sensação de que estamos - e coloco em primeira pessoa -, assim como o News Night estava, fazendo mais entretenimento do que notícia.

na medida em que avançam as ofertas de VOD (video on demand) e as pessoas ficam menos presas às grades de programação, assistindo o que querem na hora que desejam, a televisão ironicamente caminha de volta às origens: para ser majoritariamente ao vivo. e isso as nossas grandes redes já sabem fazer como ninguém, resta apenas fazer em 2013, não 1960. talvez esteja aí a esperança. em vez da notícia em tempo real significar o furo, ela pode ser responsável por levar o telespectador até o fato. como é estar no meio da avenida paulista durante as manifestações? qual o clima em brasília diante das denúncias da NSA? e por aí vai. a jovem que escolheu jornalismo dentro de mim acredita em uma nova era de ouro da televisão. e também acha que são os novos jovens, entrando hoje nas faculdades e nas redações, que vão saber unir o melhor de dois mundos - tecnologia e jornalismo - para chegar lá.





domingo, 7 de julho de 2013

saudades das locadoras

quando adolescente, a locadora de vídeos do bairro era um dos meus lugares favoritos. lembro que, aos finais de semana, eles tinham uma promoção de 10 fitas (sim, VHS) por 10 reais e foi assim, na companhia de amigas ou da irmã que assisti a todos os suspenses - estreias e acervo - da época. isso foi antes da blockbuster dominar a cidade e anos luz antes do video-on-demand deixar tudo a um clique de distância. gostava da rotina de pedir recomendações para os atendentes, comentar os que já tinha visto na hora de devolver - rebobinados, claro - e escolher os próximos, em grande parte influenciada pela capa, mas, sobretudo, pela opinião do "especialista". era o avô do recommended for you da Amazon. 

atualmente, em um domingo como hoje, minha seleção randômica de filmes para assistir com a pizza se resume às sugestões da apple tv, que nem de longe se compara aos mocinhos da locadora. o thriller The Call, por exemplo, é um clássico dos tipos que você levaria em VHS, mas nunca leria uma crítica no jornal. o atendente diria como a história é tensa (ou "eletrizante", para o bonequinho do Globo) e com um ótimo final ("surpreendente", o bonequinho, novamente). na verdade, é um típico suspense-pipoca, que eu adoro, mas os usuários da apple store, aparentemente, nem tanto. 

tenho ciência que pareço aquelas tias - ah, no meu tempo... - mas talvez os clichês sejam mesmo clichês por uma razão. agora, com licença, que vou até a blockbuster aqui do lado. 


uma boa semana. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

ganhando perspectiva



sabe aquela frase em inglês que diz look at the bigger picture? sempre que alguém diz isso, imediatamente me imagino no MoMa, quando vi pela primeira vez, ao vivo e a cores, meu quadro favorito - o The Starry Night. de perto, a obra-prima do Van Gogh parece um conjunto de borrões sem sentido, mas com alguns passos pra trás, tudo ganha cor, forma, beleza. 

nestes dias andei entrevistando alguns candidatos a uma vaga aqui na empresa e, como é de se imaginar, muitos não são de Sp. um carioca, uma mineira e um goiano, para ser mais precisa, todos morando aqui há poucos pares de anos. ao narrarem suas trajetórias, destacaram a mudança para cá como um dos pontos mais marcantes que viveram até agora - as saudades da família, ter de aprender a se virar sozinho, cuidar do apartamento pela primeira vez - conhecemos o processo. mas um deles, o carioca, me disse uma coisa diferente. ele comentava sobre como ter mudado de cidade tinha sido a melhor coisa que lhe acontecera em termos das amizades. 

como?

normalmente, a conversa dos cariocas por aqui diz respeito a exatamente o quão difícil é deixar os grandes amigos para trás e ter que construir novas amizades, daquelas duradouras, depois de mais velhos. mas o ponto dele é que a distância, o tal passo para trás, o tinha permitido enxergar o quadro desses relacionamentos de outra maneira, com muito mais clareza. 

quando você cresce, muda de rotina, de vida, de problemas, e ainda consegue falar com seus amigos como se nenhum segundo tivesse se passado, como se vocês fossem vizinhos de rua e ainda tivessem se encontrado no colégio de manhã, então são essas amizades que valem a pena. mas quando a distância parece uma pausa, uma suspensão do tempo que já não existe, das histórias que vocês já não compartilham, das pessoas que não conhecem em comum, então talvez a pintura seja mesmo apenas um retrato do que passou. 

nada como um pouco de perspectiva...   

terça-feira, 26 de março de 2013

marcos e marcas

ao longo da vida, alguns acontecimentos se tornam marcos de um período específico. há os mais tradicionais - formaturas, aniversários, batizados, bodas - mas também existem pequenos momentos que nos fazem perceber a presença de uma pessoa, uma época ou uma cidade na nossa história. no ano em que completo cinco morando em Sp, várias coisas não me deixam esquecer o quanto essa meia década representa. 

no último sábado, fui ao meu terceiro casamento paulistano - e já tem mais dois em perspectiva. pode parecer um pouco óbvio - você mora em Sp, é convidada para festas aí - mas toda vez que comento com alguém que tenho um casamento para ir escuto a pergunta "ah, no Rio?". ser convidada para ocasiões como esta é a evidência mais forte de pertencer a círculos sociais locais. 

enquanto isso, em uma esfera mais burocrática, chegou a hora de renovar minha carteira de motorista. fiz a última renovação logo antes de mudar pra cá, o que é um lembrete dos cinco anos passaram-se  e, agora, preciso transferir minha habilitação de estado. até hoje, me recusei a trocar o título de eleitor (muito mais por medo de ser mesária do que por uma questão de princípios), mas já tenho passaporte e carteira de identidade made in Sao Paulo

e finalmente, talvez o marco mais importante de todos: neste final de semana, completo meu quinto (número mágico?) ficando na cidade. isto significa sem ponte-aérea, sem escapadinha para a praia, sem qualquer outra viagem. se eu fico mais porque tenho programas e compromissos como estes, ou se tenho os tais programas e compromissos porque fico mais, ainda não sei dizer. a verdade é que todo marco deve seria ser propriamente reconhecido - e comemorado.

cheers to that.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

questão de vida ou morte

nem adianta culpar os Maias. todo final de ano é a mesma coisa, esse ritmo louco, um frenesi para correr atrás do tempo perdido e terminar tudo o que queremos fazer antes que o ano acabe. encontrar aqueles amigos para quem você prometeu um chope, renovar aquele documento vencido, botar em prática um projeto que você prometeu lá em janeiro, perder aqueles quilos da dieta que nunca deu certo.

sou super fã do Steve Jobs e, me chame de clichê, também adoro aquele discurso dele em Standford - How to live before you die.  mas esses dias, dois episódios me fizeram repensar a parte que ele fala sobre a importância da morte nas nossas vidas:

because Death is very likely the single best invention of Life. It is Life’s change agent.

será mesmo ter a certeza a todo tempo que vamos morrer um dia, nos ajuda a valorizar o que temos ou traz de fato uma ansiedade sem precedentes? na terça-feira, me peguei admirando a foto de algum lugar incrível nas Maldivas em um blog chamado Places to see before you die. as listas são infinitas. esqueça a tríade escrever um livro + plantar uma árvore + ter um filho. hoje você tem dever de casa. filmes para ver antes de morrer, músicas para ouvir, lugares para conhecer, status profissional para alcançar, apartamento para comprar, família para criar, sem esquecer, claro, de manter uma bela previdência privada para quando a idade chegar. a sensação é que estamos constantemente perdendo tempo. que tempo? 

ontem, ao acabar de jantar, vi que no meu celular tinha uma ligação, caixa postal, whatsapp, SMS E e-mail, todos de uma mesma colega de trabalho, às 22h30. aparentemente ela precisava muito falar comigo. quanto tentei retornar, vinte minutos depois - veja bem, vinte - ela não respondeu. fiquei preocupada e descobri hoje que, na verdade, ela só estava na rua vendo um material nosso e queria falar comigo a respeito. zero urgência. 

se saber que nós vamos morrer é o que nos traz essa constante agonia do que deveríamos estar fazendo, porque então os pacientes terminais e, ainda, os idosos, parecem ter uma tranquilidade muito maior em relação à vida e a seu próprio tempo? meu avô lê o jornal inteiro, todas as manhãs, isso quando não são três jornais diferentes. ele janta em 1 hora, não em 20 minutos. chega no aeroporto mais cedo, para ter calma. espera me encontrar para ter uma conversa mais séria. no entanto, seguindo a ordem natural das coisas, seria ele a ter muito mais motivo para ter pressa. 

talvez Steve Jobs tenha mesmo razão, no final das contas. talvez a morte seja, de fato, a melhor invenção da vida. e só quando estamos realmente confrontados com ela, encontramos a tranquilidade necessária para apenas.... viver. 





quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

participação especial

Assim como eu, ele também é carioca, jornalista e flamenguista. é muito querido e, em breve, será também família.

Sabe aquela história boy-meets-girl e boy fica todo bobo? Pois é. mas o rapaz transformou a paixonite em crônica. ei-la.

Groove on up

por Felipe Lobo

O cara nasceu em 1942, nos Estados Unidos, mas embalava o início da noite daquela quarta-feira em uma casa de Santa Tereza. Groove on up, Mayfield, you do so many things with a smiling face. So in Love. Se o som faz bem aos ouvidos, o pôster da Janis Joplin pregado à parede cura os olhos cheios de fumaça dos carros e ônibus que não pedem licença pela avenida Rio Branco. Superfly, Curtis, we don`t always mean the things we sometimes do. Move on up. Mas aquilo eu sentia e queria. O dia começou intenso, porque o anterior acabou ainda mais. Pés descalços, sapato, camisa social, labuta diária. Sol escaldante, pessoas andando, bonde por cima dos Arcos da Lapa. A boemia carioca já não é mais a mesma. Mas quando chega o carnaval, é chinelo de dedo, energia que pulsa e lá vem ela, de volta, como se não houvesse amanhã. I’m so proud, The Impressions.

O horário de verão iluminava as ladeiras tortuosas de Santa quando finalmente cheguei ao tradicional Bar do Gomes. Cerveja gelada e bloco na mão, se existe um sentido, passava por ali. Santo Mayfield, you don’t need no baggage, you just get on board. It’s all right. Garrafas pela parede, atmosfera saudosa e sorrisos nas ruas, combinação para lá de perfeita. Sim, era uma quarta-feira qualquer no Rio daquele mês de janeiro, em que a noite escura precisa mandar o azul descansar. A batalha é árdua, mas ganha.

Ela nasceu em São Paulo, em 1990, só que divide uma casa em Santa Tereza. Naquela quarta-feira, chegou antes da lua. Prestes a fazer 18 anos, começou a rodar o mundo. Groove on up, Prestes, choice of colours, verde e amarelo na parede, doce e salgado, arte no Globo. O volume de cd’s na sala não engana: a paulista mais carioca que eu conheci gosta de música. Vive com a música. Trabalha por ela e para ela. A companhia de um gato, a cadeira de praia, só alegria. I’m so proud, Mayfield, every time we kiss is such a pleasant taste.

Na vida, ela não foge da tempestade. Aprendeu a dançar na chuva. Seja a pé, no moto táxi, no carro, no trem, ou no ônibus. O estilo inunda seus ouvidos, e ela rema pelas ondas sem saber surfar. Parece que flutua. Mas os pés estão no chão. Fincados. Seguros. Ela sabe para onde vai, norte ou sul, leste ou oeste, ocidente ou oriente. África. Rio de Janeiro. Sem destino, parece que o tem nas pontas dos dedos. Life is crazy, believe me, it’s true. Ela sabe disso, Curtis, mais do que ninguém. Não perde o passo, mesmo se estiver fora de ritmo.

De espírito livre e lábios que dizem ainda mais quando cerrados, ela é linda. Lay me down, rest awhile, you’re moving my emotions. E ela as minhas, Mayfield. Move on up.

Prestes a encerrar aquela quarta-feira de janeiro, no Rio, lá estava ela, em Santa.

Foi este o dia em que a conheci.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

culpa, para quê te quero?


atire a primeira pedra que nunca criou um blog e depois não teve tempo suficiente para mantê-lo. guilty as charged. todas as blogueiras que sigo e admiro, vira e mexe publicam um post se desculpando, literalmente, pela ausência de palavras - este é um deles. o motivo é sempre o mesmo: falta de tempo. notem que eu disse blogueiras.

ontem estava assistindo House, série que eu descobri com certo atraso, mas adoro, e o episódio era sobre Cuddy, a diretora do hospital. a história é que a moça, solteira e bem-sucedida, decide adotar um bebê abandonado por sua paciente. o sonho de ser mãe não aconteceu da maneira convencional, mas, para ir adiante, precisava do aval do serviço social americano. no dia em que ela recebe o tal representante, a babá faltou e a casa está o um caos. para poder estar lá, ela abre mão de suas obrigações no hospital. o resultado é que ela acaba sendo aprovada, porque, segundo o funcionário, tem estabilidade financeira e emocional, mais do que se pode dizer sobre a maioria das mães.

horas mais tarde, um amigo vem visitá-la e encontra a moça desolada. ela conta que a visita foi péssima. sem entender, ele insiste no fato de ela foi aprovada afinal, então qual o problema? Cuddy explica que a aprovação veio por conta dos baixíssimos padrões e que, por sua própria avaliação, ela jamais teria passado. falhara no trabalho e em casa. o rapaz acerta na mosca, com uma fala mais ou menos assim:

"- Por que vocês, mulheres, sempre fazem isso? Estabelecem padrões impossíveis de cumprir?Peça ajuda! Qualquer homem em sua posição teria, no mínimo, dois assistentes no hospital, uma babá e a esposa em casa, mas vocês acham que precisam fazer tudo sozinhas..."

Deu pra entender?

Bom final de semana!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Abril

esse post não tem nenhum grande propósito que não seja receber o mês. devo confessar que simplesmente adoro abril. sempre gostei, é daquelas simpatias que você não sabe bem de onde surgem, mas que te acompanham. para mim, abril está para o ano como as quintas-feiras estão para a semana.

abril não é um mês propriamente especial. não tem carnaval, nem natal. não tem dia das mães, dos pais, das crianças; não tem férias escolares, não tem superstição. a única coisa que abril tem (e às vezes) é páscoa. mas também, quem não gosta de chocolate?

abril é começo do outono, o que, aqui no brasil, significa que as temperaturas começam a ficar mais amenas, os dias mais azuis e as praias cada vez mais agradáveis. se você quiser viajar, não tem problema, abril também é bom no hemisfério norte. lá no topo do globo, as temperaturas vão subindo, dando uma trégua aos que suportam temperaturas abaixo de zero, e as flores aparecem - é primavera.

abril também te dá uma perspectiva do ano. de repente, o primeiro trimestre passou assim, puf!. mas com essa sensação, vem também a tranquilidade de saber que ainda temos o ano todo pela frente para cumprir as resoluções de ano novo.

era para eu ter nascido em abril, mas resolvi esperar até maio. talvez dr. freud tenha um explicação para a minha predileção que passe por aí. talvez não. o fato é que eu gostaria de dizer:

bem-vindo, abril!

sexta-feira, 19 de março de 2010

mais do Larsson

sexta-feira é o dia do desapego. dia de se livrar de toda e qualquer culpa, respirar fundo, abrir um vinho ou tomar uma cerveja gelada para receber o final de semana. seja como for, sexta-feira é o dia relax. por isso, me sinto à vontade para fazer uma confissão: não aguentei e já estou lendo o terceiro volume da trilogia Millenium, do Stieg Larsson. a questão foi que, como emendei os dois primeiros, tinha resolvido esperar um tempo para ler o terceiro. esse plano foi por água abaixo (literalmente) durante a minha odisseia de domingo.

lá estava eu, em pleno santos dumont fechado, prevendo assertivamente a longa noite que teria pela frente. olho para meu colo e encontro a "estratégia de não-sei-bem-o-quê", uma leitura da pós-graduação. imediatamente me dou conta de que, para que eu e os funcionários da Gol sobrevivessemos àquela noite, seria preciso pegar pesado. eu precisava daquele livro capaz de te fazer mergulhar na história e por lá ficar ainda que um tsunami esteja passando do seu lado. não tive dúvidas: entrei na livraria do aeroporto, cujo dono, aliás, deve adorar um dia de caos aéreo, e arrematei meu exemplar de A rainha do castelo de ar, último volume da trilogia.

como ainda não cheguei à página 200, posso dizer apenas duas coisas:
a) para os interessados, este volume é uma continuação da história do anterior, ao contrário do primeiro para o segundo, que em comum só tem os personagens.

b) ele é tão bom que eu não ataquei nenhum funcionário da Gol ou da Infraero durante quase 8 horas de inferno.

vocês também tem um livro/autor salvação?

bom final de semana.

segunda-feira, 15 de março de 2010

a incompetência do serviço aéreo brasileiro


À meia-noite desta segunda-feira, dia 15 de março, os clientes da Gol comemoraram o Dia do Consumidor à altura de como costumam ser tratados pela Cia Aérea: com descaso e incompetência. Tudo começou com a passagem, comprada com antecedência por R$ 159,00 + taxas de embarque para o trecho Santos Dumont – Congonhas, saindo do Rio às 18h10 e chegando em São Paulo às 19h. Ao chegar no aeroporto carioca, o voo anterior (das 17h40) estava finalizando o embarque às 17h45. Qualquer um que frequente a ponte-aérea sabe que isso significa que o seu voo, o seguinte, sairia atrasado. Sendo assim, perguntei ao funcionário responsável pelo embarque se havia sobrado lugares, ao que ele respondeu que sim, mas que não poderia fazer a minha antecipação por "regras da Gol". Conformada, sentei com meu livro. Passados 40 minutos do horário previsto para embarque, a Gol ainda não tinha se dado ao trabalho de informar aos passageiros, via alto-falante ou pelos monitores de LCD que o avião do nosso voo não havia pousado e que, portanto, atrasaríamos bastante. As informações desencontradas davam conta de que uma chuva havia paralisado as atividades em São Paulo, prejudicando assim a volta das aeronaves. Esperamos. As águas de março chegaram ao Rio de Janeiro e, com a chuva torrencial que caia sob o Santos Dumont, as operações de pouso e decolagem foram suspensas pela Infraero. Menos de 1 hora depois, o aeroporto reabriu e começamos a ouvir as companhias aéreas chamando para embarque. Todas, claro, menos a Gol.

Quando os passageiros do nosso voo foram convocados ao portão, o funcionário responsável nos informou que seríamos levados ao Galeão, pois a aeronave não conseguiria pousar no Santos Dumont. Estranho, já que, da janela do aeroporto, víamos outros aviões aterrissando. Ao perceber que já eram 20h, não foi preciso muita matemática para concluir que iríamos parar em Guarulhos. Até que todos chegassem ao Galeão, embarcassem e decolássemos, certamente não chegaríamos antes das 23h em Congonhas – horário limite. Sendo assim, procurei o guichê da Gol para trocar minha passagem para segunda-feira de manhã e evitar toda a celeuma. As duas únicas vagas disponíveis eram no voo de 5h da manhã, no Galeão, ou às 9h40, no SDU. Ou seja, se resumia entre acordar às 3h ou chegar ao trabalho ao meio-dia. Não eram alternativas viáveis, então entrei no ônibus da Gol e encarei o Galeão. Não precisa nem dizer que, chegando lá, não havia um único funcionário para indicar nosso portão de embarque. A desinformação era tanta, que corria o risco de irmos parar em Manaus por acidente. Como resultado, eram 22h30 quando os últimos passageiros conseguiram achar – e entrar – no avião. À essa altura, a chuva já tinha voltado. Ficamos todos dentro do avião, esperando autorização para decolar por mais 40 minutos. Nesse ínterim, as comissárias de bordo não foram capazes de oferecer sequer uma água. (isso porque estávamos há cinco horas de atraso do nosso voo e a ANAC determina a obrigatoriedade de oferecer alimentação após 4h). Os passageiros, cansados e impacientes, reclamavam, pediam explicações, previsões, e nada. Depois de mais algum tempo, finalmente nos ofereceram um mini pacote de biscoitos e água com refrigerante. Inacreditável.

Às 23h10 fomos informados pelo comandante que estávamos partindo rumo à Guarulhos. À meia-noite, pousamos no maior aeroporto do Brasil, onde precisamos esperar por mais trinta minutos para conseguir sair do avião, já que o ônibus da Infraero não aparecia para nos buscar. No desembarque, a Gol deu a ótima notícia que não ofereceria táxi para voltarmos, e sim um ônibus que levaria os passageiros até Congonhas, aquele mesmo aeroporto que estava fechado. Isso significa que chegaríamos em Congonhas por volta de 1h30 da manhã (com sorte), para encontrar tudo fechado. A alternativa era pegar um táxi e pagar mais R$ 100,00 de meu próprio bolso.

Assim, encarei por 45 minutos a fila esperando pelo táxi no qual percorri as ruas de São Paulo a uma velocidade média de 130 km/h, torcendo para conseguir chegar com vida. Por volta de duas horas da manhã, abri a porta de casa, exausta e com a incômoda certeza de que essa não foi a primeira e não seria a última vez que passaria por isso. Hoje, segunda-feira, começo minha semana tendo dormido menos de quatro horas. Sabendo que comprei passagens para um voo às 18h10 da tarde e que, os passageiros da Gol que voariam mais tarde, não foram enxotados para o Galeão, voaram do Santos Dumont mesmo, e já estavam no milésimo sono quando eu atravessei minha portaria. Nenhuma outra Cia aérea mandou despachou seus clientes para o Galeão. A chuva de ontem foi suficiente para fechar qualquer aeroporto, mas a incompetência da Gol foi tamanha, que é como se estivesse chovendo até agora. No meio da Comunicação Empresarial, carrego comigo uma máxima que dá conta do seguinte: não é o problema que sua empresa enfrenta que lhe faz perder clientes, mas como você lida com o problema. Desesperador saber que estamos à mercê de uma empresa tão despreparada e que é hoje, senão a maior do Brasil, uma das.

Que venham a Copa do Mundo e as Olimpíadas.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

a experiência Kindle

Recentemente, fui convidada por um editor do Brasil Econômico a passar algumas semanas lendo apenas no Kindle e depois escrever sobre a minha experiência. Aceitei - e adorei - a proposta. O resultado sai na edição de amanhã do jornal, no caderno Outlook.
Para os leitores do blog, o texto, em primeira mão.
Bom fim de semana!
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Quando a Amazon apresentou ao mundo seu Kindle, o e-reader que supostamente mudaria a forma como nós lemos, quis ter o meu. Alguns dias depois da Amazon anunciar a versão internacional que funcionaria no Brasil, viabilizei a compra de modo que um amigo trouxesse dos Estados Unidos, uma vez que mandar entregar aqui significaria pagar mais que o dobro do valor do produto.

Ele, o Kindle, chegou e foi atração à primeira vista. O design é bacana, a leveza impressiona. E mesmo para quem viu surgir internet, TV a cabo e MP3, é impactante acreditar que aquilo possa ser o novo livro. De imediato, parei o que eu estava lendo - A menina que brincava com fogo, de Stieg Larsson - no segundo capítulo e comprei a versão digital do Kindle. O que significa dizer que troquei um calhamaço de mais de 500 páginas por algo da espessura de uma revista. Agora eu conseguiria ler até enquanto fazia as unhas, já que não precisaria virar as páginas.

A segunda boa descoberta foram as letrinhas que imitam papel. Se a desvantagem é ter de usar um foco de luz como qualquer livro normal, a leitura é de fato muito semelhante a de um livro normal, dá quase para esquecer que não é. O Kindle vem com uma carta de boas vindas do Jeff Bezos na qual o CEO da Amazon diz que o objetivo do aparelho é ser absolutamente imperceptível – ou seja, que o conteúdo seja de tal forma envolvente que você é capaz de esquecer em que está lendo. Lembrei que dos livros tradicionais. Há aqueles que parecem incômodos, difíceis de segurar, você não sabe bem o que faz com a orelha, e esses raramente são os bons livros.

Curtindo meu Kindle, fiz tudo o que tinha direito. Comprei jornais e não vi muita graça. O site do New York Times é muito mais rico do que a versão para Kindle. Fiz a assinatura experimental das revistas, testei o recurso de voz, aumentei e diminui as letras, inclui comentários, marquei páginas. O dicionário venceu como um dos recursos mais fantásticos. Poder consultar a definição do Oxford em apenas um clique é muito útil, principalmente com certos autores, como Faulkner.
A primeira frustração veio por causa de um velho hábito. Tenho essa mania de interromper a leitura apenas ao final de um capítulo, o que significa dizer que quando os olhos começam a fechar de sono, costumo folhear as páginas para ver o quanto falta para terminar e decidir se vou adiante. Isso até é possível no Kindle, existem as marcações de capítulo, mas os números de páginas seguem uma ordem peculiar e não dá para segurar com seu próprio dedo enquanto conta. Não é a mesma coisa. Depois veio a hora de escolher meu segundo livro digital. Tive a ideia de olhar a enorme pilha da mesa de cabeceira e procurar os livros que ali estavam na versão para Kindle. Primeira tentativa, Indigination, do Philip Roth, e nada. Aliás, nada do Roth. Sério? Insisti nos americanos. Eles têm alguns títulos do Paul Auster, outros do Gay Talese. Optei por John Updike, The Widows of Eastwick.

Você não encontra muitos dos livros que gostaria, principalmente em língua portuguesa. Esqueça Saramago, a biografia do Padre Cícero e esqueça até Rubem Fonseca – nada de O seminarista na Kindle Store. Certamente a quantidade de títulos disponíveis vai aumentar. Enquanto isso, dá para se divertir bastante com os americanos, ingleses, irlandeses e todos os outros de língua inglesa, a majoritária dentre os mais de 300.000 títulos. Mas, por enquanto, o Kindle é uma forma mais prática e moderna de carregar sempre um livro na bolsa e poder comprar outro quando eu bem entender – desde que seja em inglês, claro.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

consciente

- Amanhã é feriado.

- De novo.

- Por que mesmo?

- Zumbi.

- Zumbi, que Zumbi?

- Aquele Zumbi, o dos Palmares, que libertou os escravos.

- Entendi, é feriado dos escravos.

- Não, é Dia Nacional da Consciência Negra.

- Ah, então é feriado nacional?

- Não, só em oito estados.

- Mas não era nacional?

- É que nem todos os estados têm consciência.

- Consciência de quê?

- De que amanhã é feriado, oras.

- Amanhã é feriado! Vamos à praia?


** bom feriado a todos **

terça-feira, 6 de outubro de 2009

criticando

Nos últimos dias, uma autora muito querida pediu minha leitura crítica de seu manuscrito. Antes de começar a ler, passei alguns minutos tentando limpar minha cabeça de associações pessoais, tudo para dar a minha contribuição tão livre quanto possível. De nada adiantou.

Se a cada novo livro toda leitura que fazemos é, por essência, crítica, como organizar essas ideias e dissocía-las das emoções que a narrativa nos proporciona? Sim, porque à exceção dos livros de não-ficção, e mesmo assim os mais teóricos, cada capítulo é uma experiência emocional. Pensei nisso a partir de um texto que outro querido - esse nada ficcional - escrevera para um blog sobre a venda de empresas. Em seus argumentos, ele separava as dificuldades de uma tomada de decisão entre os aspectos 'emocionais' e os 'racionais'.


Pois devo dizer que editores são mesmo seres atípicos, porque, para mim, tal separação na literatura é impensável. Tampouco sei se os próprios editores conseguem fazê-la. Uma delas, americana que sigo no Twitter, ao falar sobre as dificuldades de recusar um original, dizia coisa parecida. Que muitas vezes, a única resposta que você tem para dar é que "não me cativou". E assim, com essas três palavras, frustrar o trabalho árduo de um autor.




Letras não são números. Pessoas não são empresas. Sabe-se que muitas estratégias de comunicação apelam à emoção de seu público-alvo. Aprendemos isso logo cedo na faculdade. Quantos anúncios em jornal não vemos com filhotes de cachorroirresistíveis, apenas para vender um imóvel? Ou anúncios de TV cuja trilha sonora foi feita especialmente para aflorar os mais profundos sentimentos e promover um remédio?




Se isso é praxe para a venda de produtos, digo que o leitor não é um consumidor comum. Um computador de última geração pode significar mais para mim do que para você, mas o objeto de desejo do leitor é infinitamente mais abstrado. O que o atrai naquele livro? O que lhe faz mudar a página? E ainda, a pergunta que toda editora gostaria de saber responder racionalmente: por que comprar aquele livro, dentro de tantas opções? Se for capaz de responder a todas essas perguntas quando terminar a última página, parabéns, você é um bom crítico.


Mas e quanto aos outros leitores, qual será a justificativa deles? As respostas são múltiplas. Enquanto reconhecimento do autor, atratividade da linguagem e qualidade da narrativa são alguns deles, pertinência do assunto, representação na sociedade e timing são outros.


Por isso, como crítica, só posso ir tão longe quanto dizer o que aquele livro significa para mim, leitora, jornalista, carioca, jovem. Quanto ao gosto do público, bem, a isso basta dizer que Augusto Cury divide a lista dos mais vendidos com Stieg Larsson...


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

7 dias

A semana foi agitada. Teve onda gigante, mini tartaruga, lançamento de novos veículos, terremoto, premiação de comunicação e eleição de olimpíada. Ufa, cansou? Eu também. E acredite: tudo isso aconteceu em apenas sete dias.

A imprensa foi protagonista do agito. Nos bastidores, os lançamentos do Portal R7 e do jornal Brasil Econômico deram o que falar, inclusive aqui no blog. Na terça-feira, foi dia de Prêmio Comunique-se, o mais relevante do setor. Saíram do CredicarHall de prêmio em punho aqueles velhos conhecidos, Monica Bergamo, Luis Fernando Veríssimo e Artur Xexéo, e outros nomes expoentes do jornalismo brasileiro como Marcelo Tas, Tadeu Schmidt e Renata Vasconcellos.

Já nas capas de jornais, páginas da internet e mídias sociais, estavam as catástrofes naturais, cujas dimensões não alcançaram o Tsunami de 2004, por sorte, mas fizeram seus estragos. O mercado editorial também ficou eufórico com a divulgação dos vencedores do Prêmio Jabuti 2009. Na categoria Romance, não teve pra ninguém - deu Companhia das Letras em 1º, 2º e 3º lugares, com Moacyr Scliar encabeçando a lista. Mas o prêmio é abrangente, e deu para (quase) todo mundo tirar uma casquinha. Cosac Naify, Editora 34, Planeta e até a Record levaram jabutizinhos para casa. Não houve sinal da Rocco, nem Ediouro e Sextante. Os grandes vencedores, Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção, serão anunciados apenas dia 4 de novembro, na cerimônia oficial.

Mas a verdade é que o brasileiro não deu muita bola para nada disso, porque o grande evento da semana só aconteceria ao meio-dia desta sexta-feira, quando o COI escolheu a cidade para sediar as Olimpíadas de 2016. Corria pela mídia que as favoritas eram Rio e Chicago, e vale lembrar que esta última tinha a seu lado o casal-do-momento Barack e Michelle Obama, ambos originários da cidade. Apesar dos moradores de Chicago, em sua maioria, não apoiarem a candidatura da cidade, o país investiu pesado na campanha e até a Oprah foi parar em Copenhague para defender sua terra - ela também é de lá. Mas Brasil foi de Lula, Pelé e Paulo Coelho (!) e voltou vencedor. De manhã cedo, nosso presidente que não é nem de perto tão elegante ou eloquente quanto o deles, fez um discurso de emocionar até os mais incrédulos como eu (veja aqui). E assim, quando ninguém esperava, Chicago foi eliminada logo na primeira rodada de votos: a decisão ficara entre Rio e Madri. O resultado, todos já sabem. E a festa, mal começou.

Se de fato o Brasil está preparado para sediar uma Copa do Mundo (2014) e uma Olimpíada (2016), poucos temos conhecimento de causa para saber. Mas se aprendemos uma mesma lição com Lula e com Obama é que esperança é a última que morre. E assim, por conta dela, ficam meus votos para que nossa Cidade Maravilhosa saia desse evento ainda mais bonita, mais bem tratada, e mais bem vista.


Afinal, nós podemos. Certo, Obama?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

prima de quem?

São Paulo, 25 de setembro, 7h30, 13ºC. O quarto dia da Primavera começou na capital paulista como os outros três: frio e chuvoso.


Durante a semana toda, não falou-se de outra coisa no Twitter, Facebook e nos blogs, mais conhecidos como os atuais elevadores, corredores e pontos-de-ônibus, claro. Mas por que diabos esperamos tanto a chegada da Primavera? Flores desabrochantes em belas árvores não é coisa que se veja na cidade cinza em estação nenhuma. Também não faz o maior dos calores, tampouco para de chover - pelo contrário, normalmente até chove mais do que no Inverno.


A ausência da Primavera, assim como o Dia Mundial sem Carro, é o respiro da opinião pública. É debaixo desses temas comuns e 'leves' que nos escondemos dos insistentes corrupção, crise econômica, assassinatos, política, acidentes... falar de como a Primavera não chegou nos dá a breve sensação de que esse é o maior de nossos problemas e, assim, faz a vida parecer mais fácil. Em uma sociedade que até comida é pauta negativa - basta ver as capas da Veja, Época, IstoÉ e afins -, falar do tempo é o recurso primo de puxar assunto quando estamos na companhia de estranhos e ficamos sem graça. É um escape.


Por isso, abrace a chegada da Primavera, xingue São Pedro, reclame do frio, comente com os amigos e comemore quando o sol e o calor finalmente chegarem. Ao menos é mais barato do que terapia...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

são paulo é prosa, rio é poesia...

faz mais de um ano que moro em são paulo. e faz exatamente o mesmo tempo que escuto a mesma pergunta impossível: rio ou são paulo?

digo impossível para mim, porque para muita gente deve ser facílimo escolher. para mim, o rio é história, são paulo é novidade. o rio é alegria, são paulo é oportunidade. o rio é família, são paulo, independência. o rio é beleza, são paulo é cultura. no rio, pouco é muito, em são paulo, tudo é pouco.

nos momentos de nostalgia, lembro que no rio tudo sobra... sobra espaço, sobram sorrisos, sobra tempo, sobra simpatia. em são paulo falta horizonte, falta leveza, falta flexibilidade, às vezes, falta ar. é fácil ser carioca, muito fácil. ser carioca nascido na zona sul então, moleza! calce suas havaianas, pegue a primeira bolsa-brinde de uma livraria charmosinha, e chame seus amigos para a praia. ou melhor: não precisa chamar, aparece lá, naquele mesmo lugar de sempre, e encontre as pessoas de sempre. pegue a mesma cadeira de praia, na mesma barraquinha. encontre aquele flanelinha que te cobra os olhos da cara, ou o cara que te vende o coco quente, mas nada importa porque é o mesmo flanelinha e o mesmo cara do coco quente. depois vá à pé comer alguma coisa - carro para quê? -, emende no choppinho, que pode não estar na capa de nenhuma Veja, mas é brahma, está perfeito.

fazendo isso você gastou quase nada, mas aproveitou muito. relaxou. descansou. pisou na areia. quem sabe explicar sensação igual a um mergulho no mar?

já em são paulo, se você quiser se divertir, ah, tá cheio de gente disposto a te levar. paulistano gosta de sair e gosta mesmo. seja minimamente sociável e você terá companhia de segunda a segunda, literalmente. tem sempre uma figura querendo te levar para comer "a melhor coxinha de são paulo", logo ali depois da "melhor caipirinha de kiwi", tudo isso para terminar no "melhor lanche de fim de noite". o paulistano aprendeu a ser anfitrião, e está disposto a te receber, de braços abertos, como o redentor. tem mais: aqui ninguém faz cara de você-só-pode-estar-brincando se, com vinte e poucos anos, você chama os amigos para ir à Pinacoteca ver a exposição do Matisse. se nova york nunca dorme, tampouco dorme são paulo. aliás, são paulo no máximo tira uma soneca, porque dormir exige tempo, e tempo, você sabe, é dinheiro.

se tem uma coisa que pode resumir meu primeiro ano de são paulo, é dizer que, aqui, você cresce. você cresce porque são paulo te faz querer mais, te faz querer ser melhor. de repente você acha que todo mundo está mais bem preparado, trabalha mais, tem mais. e você quer ser assim também, mais - e melhor.

mas, se são paulo te faz querer viver mais, o rio te faz querer viver pra sempre...


bom feriado!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

tempo...

Há alguns dias quero escrever aqui no blog. E há todos esses dias, não consigo encontrar tempo. Trabalho, curso, atenção para os amigos, namorado, salão, mais trabalho, aulas de francês, médicos... aquela velha rotina. Estava eu sentindo-me culpadíssima quando recebi esse texto da jornalista Martha Medeiros enviado por minha mãe - não é que elas têm mesmo o tal 6º sentido?
Uso como álibe para a minha ausência no blog. E recomendo a todas as mulheres que leiam. Aos homens também, para, quem sabe, entendam um pouquinho da agonia da mulher moderna.

'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros..

Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias..

Cinco dias!

Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'

Martha Medeiros - Jornalista e escritora