terça-feira, 28 de abril de 2009

castigo

Não é possível reduzir Crime e Castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski, a uma análise - ao menos não à minha. Em vez disso, temos de criar cada um nossas impressões pessoais na medida em que as palavras do escritor se aprofundam em nossa mente, até não sabermos mais no que realmente acreditamos; até que as proposições maniqueístas tornem-se pontos muito distantes no infinito de nuances.


Indico a tradução de Paulo Bezerra, da Editora 34, que ganhei de presente de um homem sábio. Além de ser um excelente trabalho linguístico, o professor da UFF nos premia com um impagável prefácio sobre Dostoiévski e seu tempo. Munido deste painel muito bem descrito, o leitor pode então criar suas próprias impressões. De qualquer forma, deixo aqui minhas impressões, no sentido real da palavra - os pontos que mais me impressionaram neste romance do século XIX:


O progresso psicológico de Raskolnikóv desde o planejamento do crime até a final (e surpreendente) realização do amor, passando pela culpa e, ao mesmo tempo, não reconhecimento do ato como criminoso. O conteúdo da teoria do "homem superior" exposta por ele próprio, na qual compara-se aos grandes ícones da humanidade, como Napoleão, que não poderiam ser detidos diante de meros "piolhos". Os sonhos descritos ao longo do romance e o papel que desempenham na trama e na construção de personagens, bem como os temas religiosos, especialmente quando Sonia lê o trecho de Lázaro da Bíblia. A inevitável comparação (e contraste) entre Raskolnikóv e Svidrigailov, que culmina com o suicídio do segundo, e dos dois com a própria teoria do "homem superior". E, por último, o fato de que, como o crime acontece ainda no início do livro, o resto do romance se permite dedicar a discutir (e desconstruir) as teorias de castigo.


Raskolinkóv é, sem dúvida, um desses personagens da literatura que, uma vez apresentados, não é possível mais esquecermos.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

novidade no blog

Já que este é um blog sobre o universo literário, nada mais gostoso do que compartilhar leituras. Portanto, a partir de hoje, nesta janela à direita vou listar os livros que li e estou lendo recentemente - a maioria por prazer, alguns, a trabalho. Sempre vão aparecer os dez últimos.

Convido a quem já tiver lido um dos títulos da minha lista a deixar um comentário e, assim, podemos trocar opiniões. Que comecem as letrinhas...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

madame online

Mais uma vez ela, a Madame de nosso século, a Web 2.0, nos surpreende. É que um grupo da Universidade de Rouen, liderado pelo professor Yvan Leclerc, mobilizou centenas pessoas com um convite lançado na internet. A proposta era participar de um projeto para publicar online as mais de 4.500 páginas dos manuscritos originais de Madame Bovary, romance de estréia de Gustave Flaubert. Os voluntários que ajudaram na transcrição tem idades que vão de 16 a 76 anos, de mais de 17 países. Estima-se que mais de 600 pessoas tenham participado do projeto, que durou dois anos. E ainda dizem que os livros estão chegando ao fim diante da era digital? I don´t think so...

O brilhante resultado está disponível aqui para quem quiser se deleitar. As tais transcrições foram necessárias por causa de corrosões e manchas acumuladas nos originais ao longo do tempo. Agora, além de poder navegar à vontade pelas páginas do romance, o leitor-internauta pode também visualizar simultaneamente a versão manuscrita. Assim, é possível ler a obra inteira, de cabo a rabo, exatamente como Flaubert a concebeu.

Madame Bovary (1857) foi o mais célebre livro de Gustave Flaubert. Nele, o autor francês deprecia afiadamente os costumes burgueses no segundo império francês. Por seu caráter cínico, a obra foi acusada de ser uma ofensa à moral e à religião. Flaubert foi levado aos tribunais, onde, para defender-se, disse que Emma Bovary era, na verdade, seu alter-ego. Madame Bovary é uma obra fundamental na literatura de seu tempo, o chamado século de ouro do romance (XIX), e considerado por muitos o ápice da narrativa longa.

Mais de 150 anos depois de seu lançamento, assistimos a dezenas de gerações juntando-se para adequar este grande clássico ao nosso tempo. Para mim, as novas tecnologias cada vez mais caminham para consolidar - e difundir - os maiores trabalhos da humanidade. Standing on the shoulders of giants.

sábado, 18 de abril de 2009

Kindle 2, test-reading

Finalmente consegui um Kindle 2 - aquele leitor de livros digitais da Amazon - para brincar. Quer dizer, testar...

Ele é lindinho e, assim, à primeira vista, é capaz de conquistar a atenção de qualquer e-lover. É também absolutamente supreendente, mas ainda tem alguns pontos a melhorar.
Por partes.


A favor:

O Kindle 2 tem um design super bacaninha. É branco na frente e prata fosco atrás, quase como um dos primeiros iPods videos. Além disso é consideravelmente leve (290g) e muito, muito fino, tanto quanto revistas;

A leitura na tela é muito agradável. O fundo cinza em cima do qual as letras são aplicadas (em vez do branco como no computador convencional) facilita a visualização, aproximando mais a qualidade a de um papel impresso. A tela também não emite luz, por isso não cansa a vista em leituras longas. A semelhança com uma página de livro é impressionante - chegamos a ver as ranhuras da fonte;

O feature de dicionário é muito bom. Para qualquer palavra que você clique, imediatamente aparece a definição do The New Oxford American Dictionary no rodapé;

É possível fazer anotações e grifos ao longo do texto;

O Kindle 2 também armazena música, para quem gosta de ler com trilha sonora ao fundo;

O mais bacana é que a cada e-book comprado, a Amazon faz um backup da sua biblioteca para você (que inclui as suas marcações no texto). Por isso, caso um dia perca o Kindle, é só fazer o download de todos os títulos.


Contra:

A tela ainda poderia ser um pouco maior, principalmente considerando o tamanho dele. Há muito espaço sub-aproveitado (com as teclas);

O tamanho dele não é dos mais confortáveis para muito tempo. Não é nem grande o bastante para segurar com as duas mãos, nem pequeno o suficiente para uma só;

O joystick para navegar no menu e a tecla de virar páginas já são um pouco ultrapassadas. Talvez, com a tecnologia touchscreen fosse mais rápido operar e ainda permitiria aumentar o tamanho da tela;

As imagens são em preto e branco, o que prejudica certos livros - com caderno de fotos, ou livros de arte, por exemplo;

E não que o Kindle seja difícil de mexer, mas também não é dos aparelhos mais user friendly do mercado.


Muitos vão dizer que a experiência de ler um livro é muito física e pessoal para ser digitalizada. Preferências à parte, os amantes da leitura devem lembrar que, com um único Kindle você consegue carregar para onde quiser mais de 4.000 livros diferentes.


Mas o principal é que os features que diferenciam o Kindle 2 de outros e-readers não estão disponíveis fora dos EUA: compra de livros direto do site da Amazon, em qualquer lugar, sem depender de internet, em menos de 60 segundos; acesso aos grandes jornais e revistas.


Além disso, mesmo que seja possível comprar os livros eletrônicos no site da Amazon e fazer a transferência usando um cabo usb, a loja do Kindle só aceita cartões de créditos emitidos nos EUA, portanto, para nós, nada feito. Temos mesmo que esperar. E torcer para que, até chegar ao Brasil, o Steve Jobs já tenha resolvido fazer um iKindle...

domingo, 12 de abril de 2009

I sing to use the Waiting


Uma pessoa muito querida certa vez me disse que a espera é inevitável, mas que devemos escolher como esperamos. Decidi esperar cantando...

I sing to use the Waiting
My Bonnet but to tie
And shut the Door unto my House
No more to do have I

Till His best step approaching
We journey to the Day
And tell each other how We sung
To Keep the Dark away.


Emily Dickinson, 1955.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

biografias jr.

A editora Thomas Nelson Brasil está lançando este mês Sem limites - A vontade de vencer, a biografia do nadador e recordista olímpico Michael Phelps. Detalhe: Phelps tem 23 anos. Lembrei de outra jovem biografia, a da cantora Amy Whinehouse, de 25 anos, lançada no ano passado pela Editora Globo.

Concordo que o primeiro conquistou na olimpíada de Pequim, nada menos do que oito medalhas de ouro, o maior número de todos os tempos em uma única edição. E tá certo que a outra, um dos maiores cantoras do R&B contemporâneo, já foi drogada, internada, presa, casada, solta, recuperada, cardíaca, divorciada e mais um pouco drogada, tudo isso em 1/4 de século. Mas ainda assim, me pergunto, o quanto pode haver para se contar em uma biografia de pessoas em seus vinte e poucos anos? Considerando que a maior parte da vida ainda é a infância e adolescência e que, convenhamos, quão interessantes as questões infanto-juvenis podem ser? Uma assistiu ao pai bater na mãe e outro era hiperativo? big deal.

Saibam que sou uma grande fã de biografia. Aliás, nada como uma biografia bem escrita, daquelas que, ao fechar o livro, você tem vontade de colocar a foto da pessoa como seu protetor de tela - os pôsteres no quarto do século XXI. Eu, por exemplo, quis me mudar para a Inglaterra depois de ler a história de Churchill. Mas, realmente, tenho sérias resistências a essas biografias de pessoas tão jovens, por maiores ícones que possam ser... E continuo esperando que me provem equivocada.

domingo, 5 de abril de 2009

para agitar a festa

O time de autores estrangeiros confirmados para a próxima edição da Flip está cada vez mais forte: Alex Ross (1968) é um dos mais respeitados críticos musicais americanos e escreve ótimas resenhas na New Yorker. Em 2007, publicou o livro The rest is noise (O resto é ruído), amplo ensaio que propõe uma análise do papel da música erudita no século XX.

Por falar em críticos, a francesa Catherine Millet (1948) também vem para a festa. Catherine é crítica de arte, curadora, fundadora e editora da revista de arte moderna Art Press. Autora de importantes livros da área como Arte Contemporânea na França e Arte Contemporânea: História e Geografia, tornou-se conhecida internacionalmente em 2001 com o lançamento do polêmico A Vida Sexual de Catherine M., considerado um dos mais ousados livros de autoria feminina sobre sexo. O livro de memórias reconstroi seu histórico sexual percorrendo desde as primeiras experiências de masturbação até o casamento aberto que mantém com o marido, Jacques Henric. Acaba de ser lançado no Brasil Dia de Sofrimento, uma espécie de sequência em que retoma os relatos da relação conjugal para falar sobre a questão do ciúme.

O jornalista Gay Talese (1932) é considerado o criador do "new journalism", gênero literário de não-ficção que aproveita as técnicas do jornalismo para a narrativa. É autor de 11 livros incluindo alguns best-sellers. Trabalhou como repórter do New York Times por dez anos e escreveu para as revistas Newsweek e The New Yorker, entre outras publicações. Referência fundamental para qualquer jornalista atuante.

A mais recente confirmação é de Richard Dawkins (1941), autor de vários clássicos contemporâneos nas áreas de ciências e filosofia como O gene egoísta, A escalada do monte improvável e Deus, um delírio, entre outros.

Mais alguém está morrendo de vontade de ir? Corra, porque as vagas em hotéis e pousadas já estão acabando...

quarta-feira, 1 de abril de 2009

twitters & publishers

Parece que o Twitter é a bola da vez - celebridades usam para ganhar atenção do público, a mídia entra no jogo e publica notícias sobre o que os famosos andam fazendo por lá e... claro, o mundo dos negócios discute como aproveitar a tendência para potencializar suas ações de marketing. Como todas as ferramentas da Web 2.0, o Twitter é muito criticado por alguns, que dizem não passar de uma bobagem, e superestimado por outros, que apostam todas suas fichas na novidade.

Para os perdidos, funciona assim: as pessoas criam um perfil simplificado e podem postar updates curtos (até 140 caracteres) que são recebidos por seus "seguidores". Usuários podem "seguir" quantas pessoas quiserem e passam a acompanhar todas as atualizações (twitters) publicadas. Na prática, é como uma versão mais simplificada e rápida de um blog. Aliás, blogueiros podem associar seu site ao Twitter, fazendo um intercâmbio de postagens. (estou curiosíssima para testar, mas um problema técnico de peopleware me impede) Aos descrentes, um alerta: o Twitter, que em 2008 estava em 22 lugar entre as redes sociais, alcançou a 3a posição em fevereiro deste ano, com 6 milhões de usuários, ficando apenas atrás de Facebook e MySpace. Outra pesquisa recente aponta que 40% dos executivos prefere o Twitter para comunicação de negócios, deixando o LinkedIn em segundo lugar.

As editoras parecem determinadas a aproveitar a oportunidade. Algumas como Penguin Books (Reino Unido), Thomas Nelson e Macmillan (EUA), não só tem uma conta em nome da própria empresa que é atualizada com notícias sobre seus lançamentos, autores da casa e eventos, mas apostam além: segundo eles, os editores não devem ter medo de associar-se pessoalmente ao Twitter e, em vez de fazer parecer mais uma frente de marketing, mostrar ao público o que os motiva no mundo dos livros. Como as atualizações são rápidas - podem ser feitas a partir de smarphones com tanta facilidade quanto mandar um SMS - e curtas, a ideia é que os funcionários de editoras compartilhem seu dia-a-dia com os leitores, acrescentando seu toque pessoal, mas, claro, sobre assuntos que possam interessá-los.

Por sua essência colaborativa, o Twitter também funciona como uma janela de feedback do mercado para as editoras. É possível testar a receptividade de títulos, marcas e produtos em geral. Claro que ainda é um momento de experimentação, mas na indústria de publishing é sempre necessário estar atento às novidades e, muitas vezes, testar mesmo. Certamente o objetivo primário não deve ser aumento direto de vendas. É preciso primeiro investir em uma relação primeiro - mesmo que ela seja virtual - antes de cobrar retorno...