segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

balanço das prateleiras

Antes que o ano acabe - oficialmente, porque na prática, já se foi - um rápido balanço das leituras do ano.

Dos clássicos, Crime e castigo; obras completas de Edgar Allan Poe; Kafka; Conrad; Lolita, é difícil eleger o melhor. Talvez Kafka tenha me encantado mais. Embora todos tenham sido gigantes inesquecíveis da minha literatura, diria que a dupla Kafka-Poe marcou o ano.

Os contemporâneos foram mais ecléticos: Rona Jaffe; Milton Hatoum; Chico Buarque; Richard Yates; Gay Talese; Onetti; Paul Auster; Larsson; o casal Garcia-Roza, claro, e, mais recentemente, Alain de Botton. Dessa lista, dispensaria o Leite Derramado, do Chico, e talvez O poço, do Onetti. As boas surpresas ficaram para Yates, que descobri ser um ótimo escritor, e Talese, o grande jornalista de nossa época. Também faço uma menção honrosa à trilogia do sueco Larsson, ainda que me falte ler o último volume.

Encerro o ano muito bem. A arte de viajar, do suíço de Botton, está se revelando um delicioso ensaio sobre, porque, afinal de contas, gostamos tanto de viajar. No mínimo, o timing é perfeito.

Deixo-lhes então com uma frase de Baudelaire e com a seguinte pergunta: quais leituras marcaram seu ano?

"Anywhere! Anywhere! Out of this world!"

Boas festas e até 2010!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

calendário 2010


Em pleno dezembro, não dá para evitar, ficamos todos monotemáticos. E a pauta é uma só: o próximo ano. De repente, como que contaminados por uma epidemia, nos cansamos de 2009 e queremos nos livrar dele o quanto antes. É quase como a última semana no emprego antigo ou os dias derradeiros de um relacionamento desgastado.


Então, se o clima é este, vamos falar de 2010. Os dois maiores - apesar de completamente diferentes - eventos literários do país já têm data marcada.

A Festa Literária Internacional de Paraty, mudou de mês para se adequar à Copa do Mundo, pois afinal, podemos gostar de literatura, mas somos todos brasileiros. A oitava edição da Flip acontece de 4 a 8 de agosto e vai homenagear o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Os autores convidados ainda não foram anunciados pela organização, por isso nem adianta ir dormir na fila do ingresso.

Saindo da bucólica Paraty para uma agitada São Paulo, de 12 a 22 de agosto é a vez da capital paulista receber a Bienal do Livro. As edições cariocas da Bienal ainda dão um banho, mas quem sabe este não é o ano dos paulistanos mostrarem seu potencial?




Aproveite o recesso de fim de ano para por a leitura em dia e curtir o lado literário deste novo ano. Feliz livro novo!


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

a experiência Kindle

Recentemente, fui convidada por um editor do Brasil Econômico a passar algumas semanas lendo apenas no Kindle e depois escrever sobre a minha experiência. Aceitei - e adorei - a proposta. O resultado sai na edição de amanhã do jornal, no caderno Outlook.
Para os leitores do blog, o texto, em primeira mão.
Bom fim de semana!
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Quando a Amazon apresentou ao mundo seu Kindle, o e-reader que supostamente mudaria a forma como nós lemos, quis ter o meu. Alguns dias depois da Amazon anunciar a versão internacional que funcionaria no Brasil, viabilizei a compra de modo que um amigo trouxesse dos Estados Unidos, uma vez que mandar entregar aqui significaria pagar mais que o dobro do valor do produto.

Ele, o Kindle, chegou e foi atração à primeira vista. O design é bacana, a leveza impressiona. E mesmo para quem viu surgir internet, TV a cabo e MP3, é impactante acreditar que aquilo possa ser o novo livro. De imediato, parei o que eu estava lendo - A menina que brincava com fogo, de Stieg Larsson - no segundo capítulo e comprei a versão digital do Kindle. O que significa dizer que troquei um calhamaço de mais de 500 páginas por algo da espessura de uma revista. Agora eu conseguiria ler até enquanto fazia as unhas, já que não precisaria virar as páginas.

A segunda boa descoberta foram as letrinhas que imitam papel. Se a desvantagem é ter de usar um foco de luz como qualquer livro normal, a leitura é de fato muito semelhante a de um livro normal, dá quase para esquecer que não é. O Kindle vem com uma carta de boas vindas do Jeff Bezos na qual o CEO da Amazon diz que o objetivo do aparelho é ser absolutamente imperceptível – ou seja, que o conteúdo seja de tal forma envolvente que você é capaz de esquecer em que está lendo. Lembrei que dos livros tradicionais. Há aqueles que parecem incômodos, difíceis de segurar, você não sabe bem o que faz com a orelha, e esses raramente são os bons livros.

Curtindo meu Kindle, fiz tudo o que tinha direito. Comprei jornais e não vi muita graça. O site do New York Times é muito mais rico do que a versão para Kindle. Fiz a assinatura experimental das revistas, testei o recurso de voz, aumentei e diminui as letras, inclui comentários, marquei páginas. O dicionário venceu como um dos recursos mais fantásticos. Poder consultar a definição do Oxford em apenas um clique é muito útil, principalmente com certos autores, como Faulkner.
A primeira frustração veio por causa de um velho hábito. Tenho essa mania de interromper a leitura apenas ao final de um capítulo, o que significa dizer que quando os olhos começam a fechar de sono, costumo folhear as páginas para ver o quanto falta para terminar e decidir se vou adiante. Isso até é possível no Kindle, existem as marcações de capítulo, mas os números de páginas seguem uma ordem peculiar e não dá para segurar com seu próprio dedo enquanto conta. Não é a mesma coisa. Depois veio a hora de escolher meu segundo livro digital. Tive a ideia de olhar a enorme pilha da mesa de cabeceira e procurar os livros que ali estavam na versão para Kindle. Primeira tentativa, Indigination, do Philip Roth, e nada. Aliás, nada do Roth. Sério? Insisti nos americanos. Eles têm alguns títulos do Paul Auster, outros do Gay Talese. Optei por John Updike, The Widows of Eastwick.

Você não encontra muitos dos livros que gostaria, principalmente em língua portuguesa. Esqueça Saramago, a biografia do Padre Cícero e esqueça até Rubem Fonseca – nada de O seminarista na Kindle Store. Certamente a quantidade de títulos disponíveis vai aumentar. Enquanto isso, dá para se divertir bastante com os americanos, ingleses, irlandeses e todos os outros de língua inglesa, a majoritária dentre os mais de 300.000 títulos. Mas, por enquanto, o Kindle é uma forma mais prática e moderna de carregar sempre um livro na bolsa e poder comprar outro quando eu bem entender – desde que seja em inglês, claro.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

palavras apenas


O título deste blog é Melhores Palavras porque esse foi meu desejo ao criá-lo – que trouxesse palavras melhores ao nosso dia a dia. As palavras, como se sabe, são poderosas. O sim e o não podem mudar definitivamente as coisas, assim como o talvez pode abrir uma porta. Há outras palavras que são fortes. Os adjetivos, um superlativo. Palavras de incentivo, de consolo, de apoio, de esperança. Palavras de ódio, de rancor, de tristeza.

Existem palavras que só servem para ferir, outras para fazer sorrir. Mas existem também palavras que podem fazer os dois, depende apenas de onde elas vêm, ou por quais outras são acompanhadas. Algumas palavras são solitárias. A indecisão, a dúvida, a ausência são palavras silenciosas, densas, pesadas. A alegria, a comemoração, a conquista são palavras coloridas, leves, e são palavras multiplicadoras.

Nós somos avaliados e medidos por nossas palavras; quantas palavras, quais palavras, como palavras? Somos unidos por uma palavra e separados por outra. Nosso destino muitas vezes se decide com uma única palavra, e assim, sem mais explicações, surge outra palavra para mudar o que parecia imutável. Por isso, algumas palavras são tão vazias – fim, nunca, sempre – elas nunca cumprem seu propósito definitivo. Exceto por uma. A morte.

Tudo o que procuramos ao conversar com um amigo, ler um livro, ver TV, ouvir uma música é uma palavra ou um conjunto de palavras que possa nos dizer aquilo que não sabemos definir.
Que venham as melhores palavras.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

o que eu gosto

"What he liked about these books was their sense of plenitude and economy. In the good mystery there is nothing wasted, no sentence, no word that is not significant. And even if it is not significant, it has the potential to be so - which amounts to the same thing."
The New York Trilogy, Paul Auster, 1985.
Só porque falaram mal dele. E porque nesta semana, ganhamos um ótimo mystery.
Bom final de semana.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

editar para sobreviver

Virou lugar-comum falar sobre a overdose de informações da vida moderna. Mas os clichês normalmente são bem justificados. Jornal da manhã, rádio no trânsito, canais de notícia 24 horas no ar, portais atualizados a cada minuto, centenas de amigos postando conteúdos nos blogs, Facebooks e replicando informação via Twitter. Basta um dia inteiro offline para se dar conta de quanto conteúdo deixamos de absorver neste período. E é exatamente nestes momentos que nós, público espectador do show da mídia, passamos a fazer uma edição amadora.
Experimente ficar algumas horas sem entrar no Twitter ou no Facebook, por exemplo. Quando acessar, a quantidade de informações será tamanha que você será forçado a selecionar o que vai ler. Normalmente recorremos às pessoas em quem mais confiamos como fonte de informação. E não pense que estas serão, necessariamente, jornalistas, formadores de opinião no sentido óbvio, mas aquelas a quem, por um determinado conjunto de características, delegamos a função de editores-amadores.
George Brock, chefe do departamento de jornalismo da City University, de Londres, disse mais ou menos isso no congresso da Associação Mundial de Jornais, cuja principal pauta foi, claro, o temido fim dos meios de comunicação clássicos frente ao crescimento da internet e democratização da informação:
"mesmo nas novas mídias, as pessoas irão confiar em quem está selecionando as notícias para elas. É o poder da edição, da seleção. Isso não vai desaparecer."
Concordo com Brock. Se os livros serão digitais, impressos, acessíveis ou exclusivos, personalizados ou genéricos, é um mero detalhe. O fato é que a figura do editor não irá desaparecer. Pode ser que esta função se torne menos formal e mais maleável, mas não se engane - precisamos editar para sobreviver.