terça-feira, 27 de outubro de 2009

saudades

Nesta madrugada, faz um ano que o mundo ficou menos florido. Para homenagear nossa tão querida Acácia Brazil de Mello, grande harpista e incomparável ser humano, compartilho o texto que minha mãe um dia me apresentou como sendo o favorito da avó.
Certamente, lição para toda uma vida.

Desiderata

Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa,


lembrando-se de quanta paz pode haver no silêncio.


Tanto quanto possível, sem renunciar,


mantenha boas relações com todas as pessoas.


Fale a sua verdade calma e claramente;


e ouça a dos outros,


mesmo a dos tolos e ignorantes;


eles também têm sua história.


Evite as pessoas escandalosas e agressivas;


elas atormentam o espírito.


Se você se comparar com os outros,


poderá se tornar vão ou amargo,


pois haverá sempre pessoas melhores e piores que você.


Desfrute tanto suas realizações, quanto os seus planos.


Mantenha-se interessado no seu trabalho, ainda que humilde;


esse é um bem real frente às variações da sorte.


Tenha cautela nos negócios,


pois o mundo está cheio de armadilhas.


Mas não se torne cético quanto à virtude que existe;


muita gente luta por ideais nobres


e em toda parte a vida está cheia de heroísmo.


Seja você mesmo.


Principalmente, não simule afeição.


Nem seja cínico em relação ao amor,


pois, diante de toda aridez e desencanto,


ele é perene como a relva.


Aceite com serenidade os ensinamentos do passar dos anos,


renunciando com elegância ao que pertence à juventude.


Cultive a força do seu espírito para protegê-lo no infortúnio inesperado.


Mas não se desespere com perigos imaginários.


Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.


A despeito de uma disciplina rigorosa,


seja brando consigo.


Você é filho do universo


como as árvores e as estrelas;


você tem o direito de estar aqui.


E, mesmo que isso não seja muito claro para você,


não tenha dúvida que o Universo segue na direção certa.


Portanto, esteja em paz com Deus,


como quer que você O conceba.


E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,


na ruidosa confusão da vida,


mantenha a paz em sua alma.


Apesar de todas as trapaças,agruras e desencantos,


o mundo ainda é belo.


Seja alegre. Se esforce para ser feliz.




Max Ehrmann, 1927

domingo, 25 de outubro de 2009

pura expressão


Para começar a semana, lhes deixo com uma frase do grande Henri Cartier-Bresson, cuja exposição visitei hoje, no SESC Pinheiros, em São Paulo.

Express yourself.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

de vento em popa

O assunto do dia de hoje foram os resultados extraordinários da Amazon. A pontocom que vende de tudo, mas é famosa por seus livros, cresceu nada menos que 28% no trimestre que terminou em setembro, superando todas as expectativas do mercado. A perspectiva para o Natal também é excelente, tanto que suas ações subiram 13% hoje. Os bons resultados parecem mesmo ter sidos impulsionados pelo Kindle. Sem números oficiais, Jeff Bezos disse que o e-reader "se tornou o item mais vendido de todas as categorias da Amazon, tanto em unidades quanto em valor. É também o mais presenteado e mais 'wished'."
Também nesta semana, uma matéria do NYTimes aponta os adeptos de livros digitais como leitores mais vorazes. "A Amazon diz que as pessoas que usam o leitor digital Kindle compram 3,1 vezes mais livros do que antes de terem o dispositivo. Este número era de 2,7 em dezembro de 2008." indica a colega Claudia Montenegro, sempre atenta ao mercado editorial. Some-se a isso o recente anúncio da Barnes & Noble do Nook, considerado o mais forte concorrente do Kindle, cujo lançamento está previsto para novembro, e podemos dizer que esta foi, definitivamente, a semana dos e-books.
E ainda tem gente achando que eles representam o fim do mercado editorial...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

high-tech

Na semana passada, dois eventos simultâneos me fizeram pensar sobre o que lemos e quanto leremos.
A Feira de Frankfurt alimentou as esperanças até dos mais descrentes. Além da China, país cuja literatura não tem nenhuma tradição internacional, ter sido o país homenageado, roubaram a cena aqueles que representam o futuro do mercado editorial. De um lado, o Google e sua batalha pela criação de uma biblioteca eletrônica universal através da digitalização de títulos. Do outro, Amazon, Sony e, mais recentemente, Barnes & Noble, apostam suas fichas na vedete do momento, os e-readers.
Já o I Seminário de Estratégia de Comunicação e Marketing da The George Washington University, realizado nos dias 16 e 17 em São Paulo, era sobre O efeito obama. Não no sentido político, mas em referência às transformações que a campanha do atual presidente americano fez no campo da comunicação ao elevar o valor das redes sociais, internet e novas mídias. O crescimento de ferramentas como blogs, Twitter e Facebook há muito é reconhecido, mas foi a partir do "efeito obama" que passou a ser levado à sério e incorporado às estratégias empresariais e políticas ao redor do mundo.
Impossibilitada por um Oceano Atlântico de estar no primeiro, fui ao segundo por cortesia do Instituto Empreender Endeavor, um dos parceiros do evento. Mas, afinal, resta a questão. Estamos nos encaminhando para uma sociedade de mensagens rápidas, difusas, personalizadas e, consequente menos leitura? Todo texto que tenha mais de três linhas será grande demais para ser comunicado, na mesma medida em que um debate político pode ser duradouro demais para ser assistido? Ou é exatamente o oposto, e as tecnologias funcionarão como suporte para a democratização da leitura (Google) e facilitação do ato de ler (e-readers)?
Talvez as duas coisas. Provável que uma saída para a enorme quantidade de informação a que somos expostos diariamente seja a condensação das mesmas. Assim, só paro para dedicar uma hora de leitura ao que realmente me interessa, enquanto posso ficar a par de todo o resto com uma passada de olhos no Twitter, em cinco minutos. Na edição deste sábado, a Veja entrevistou o criador do Twitter, e ele disse que uma das grandes vantagens do microblog é o fato deste ser unilateral. Ou seja: ao contrário do e-mail, do telefonema e até do Facebook, ninguém espera de você uma resposta. Podemos ser twittadores passivos, ufa, um respiro. Já William Bonner confessou no mesmo final de semana à Marília Gabriela que gosta do Twitter porque lá ele pode não ser sério. Outro alívio.
Serão as novas mídias um escape para a avalanche cotidiana ao mesmo tempo em que são um refúgio para quem ainda quer, no meio de um aeroporto lotado, parar e ler um livro que cabe no bolso?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

em alemão



Enquanto o mundo corporativo submerge em reuniões infindáveis para avaliar o ano corrente e fechar os orçamentos para 2010, o mundo editorial para nos próximos dias para rever seu próprio mercado. Começa amanhã a 61ª Feira do Livro de Frankfurt, maior e mais importante evento do setor.


Alguns especulam que a feira deste ano será pautada pelos e-books, outros dizem que a controversa homenagem à China ainda vai repercutir mais nos próximos dias. O fato é que 2009 foi o ano do Kindle, do acordo do Google Book Search, de fusões e falências nos Estados Unidos e no Reino Unido, de crescimento no mercado brasileiro e latinoamericano, e ainda não terminou.


Ficamos por aqui, de olho nos resultados desse encontro de 7.300 expositores, de cem países, e aproximadamente 300 mil visitantes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Trilogia Millenium, Parte I

Sabe aquele livro que você paquera durante um tempo até, finalmente, se render à leitura? Os homens que não amavam as mulheres era um desses. Primeiro volume da Trilogia Millenium do jornalista sueco Stieg Larsson, o livro foi um best-seller absoluto na Europa, onde vendeu milhões de exemplares. Por aqui, não conseguiu a mesma proeza – mas agradou a muitos.

Do início da leitura até a última página do livro, tempo que equivaleu a muito mais dias do que eu gostaria, perdi as contas de para quantas pessoas recomendei Os homens que não amavam as mulheres. Neste thriller de primeira, Larsson acerta a mão nos ingredientes contemporâneos adicionando uma boa dose de recursos digitais/tecnológicos, dilemas éticos do jornalismo e corrupção corporativa. Se o título em português entrega a natureza dos crimes cometidos nesta novela, sua versão original, The Girl With the Dragon Tattoo, dá a devida dimensão à Lisbeth Salander, personagem em quem o leitor – assim como Dirch Frode – não acredita muito de início, mas que toma de assalto a narrativa, o protagonista e o próprio vilão.

O livro gira em torno da derrocada profissional de Mikael Blomkvist, então editor da revista de esquerda Millenium, que é julgado e condenado por difamação em um artigo sobre o magnata Hans-Erik Wennerström. Sem chão, Mikael recebe um súbito e estranho convite de Henrik Vanger. Aposentado, Vanger já representara os negócios de uma das famílias mais ricas da Suécia, e há quarenta anos perseguia obsessivamente os rastros do desaparecimento de Harriet Vanger, sua sobrinha. O milionário oferece à Mikael um contrato de um ano, período no qual ele se dedicaria ao mistério sob o pretexto de escrever uma biografia da família. Por uma razão ou outra, Mikael decide aceitar e antes do que espera se vê envolvido até o pescoço em uma trama familiar mais complicada do que supunha.

Lisbeth Salander, jovem, solitária e socialmente problemática, mas uma talentosíssima pesquisadora-hacker entra na história e na vida de Mikael e se torna uma espécie de fiel escudeira desse detetive subvertido. No fim das contas, juntos, Mikael e Lisbeth solucionam o caso épico e devolvem a paz ao velho Henrik. Mas até chegar lá, Larsson nos conduz com habilidade por um labirinto repleto de saídas falsas, cuja diretriz é pautada pelas regras básicas do jornalismo – confie apenas em fatos, verifique todas as informações, converse com os envolvidos e nunca, nunca revele suas fontes.

Um dos melhores thrillers do milênio, Os homens que não amavam as mulheres é, para a minha alegria, apenas o primeiro de três volumes. Encantador para os amantes de romances policiais, indispensável para jornalistas com um quê investigativo e absolutamente adequado à nossa era.

Pena que o autor, ele também jornalista e ativista, tenha morrido tão cedo, aos 50 anos, antes mesmo de saborear o sucesso de seus romances.


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

dia das crianças antecipado

Na véspera do anúncio mais esperado da literatura, uma boa notícia aos leitores do mundo inteiro. É que amanhã a organização do Prêmio Nobel divulga o vencedor da categoria Literatura de 2009. Entre os mais cotados estão o israelense Amós Oz, a argelina Assia Djebar e os americanos Joyce Carol Oates e Philip Roth.


Mas quem fez o grande anúncio hoje foi Jeff Bezos, diretor executivo da Amazon. A pontocom mais famosa do planeta lançou a tão esperada versão internacional do Kindle. O leitor eletrônico, até então vendido apenas nos Estados Unidos, passa a estar disponível para mais de 100 países, incluindo o Brasil.


Se antes podia-se comprar o aparelho lá fora, sua função mais bacana não funcionaria aqui - o download de conteúdo (livros, revistas e jornais) através de uma rede sem fio. Agora isso será possível também para nós. A Kindle Store, loja do conteúdo digital, já tem mais de 290 mil títulos em inglês. E quem não perdeu tempo foi O Globo, pois o jornal saiu na frente e será um dos veículos internacionais disponíveis para leitura no Kindle.


A aposta em outros países faz todo sentido. Segundo Bezos, atualmente o Amazon vende 48 títulos digitais para cada 100 livros físicos. Nada mal para quem não botava fé nos e-books.


Esta versão do Kindle já está à venda por U$ 279 plus taxes, claro. Pronto. Escolhi meu presente de Dia das Crianças.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

criticando

Nos últimos dias, uma autora muito querida pediu minha leitura crítica de seu manuscrito. Antes de começar a ler, passei alguns minutos tentando limpar minha cabeça de associações pessoais, tudo para dar a minha contribuição tão livre quanto possível. De nada adiantou.

Se a cada novo livro toda leitura que fazemos é, por essência, crítica, como organizar essas ideias e dissocía-las das emoções que a narrativa nos proporciona? Sim, porque à exceção dos livros de não-ficção, e mesmo assim os mais teóricos, cada capítulo é uma experiência emocional. Pensei nisso a partir de um texto que outro querido - esse nada ficcional - escrevera para um blog sobre a venda de empresas. Em seus argumentos, ele separava as dificuldades de uma tomada de decisão entre os aspectos 'emocionais' e os 'racionais'.


Pois devo dizer que editores são mesmo seres atípicos, porque, para mim, tal separação na literatura é impensável. Tampouco sei se os próprios editores conseguem fazê-la. Uma delas, americana que sigo no Twitter, ao falar sobre as dificuldades de recusar um original, dizia coisa parecida. Que muitas vezes, a única resposta que você tem para dar é que "não me cativou". E assim, com essas três palavras, frustrar o trabalho árduo de um autor.




Letras não são números. Pessoas não são empresas. Sabe-se que muitas estratégias de comunicação apelam à emoção de seu público-alvo. Aprendemos isso logo cedo na faculdade. Quantos anúncios em jornal não vemos com filhotes de cachorroirresistíveis, apenas para vender um imóvel? Ou anúncios de TV cuja trilha sonora foi feita especialmente para aflorar os mais profundos sentimentos e promover um remédio?




Se isso é praxe para a venda de produtos, digo que o leitor não é um consumidor comum. Um computador de última geração pode significar mais para mim do que para você, mas o objeto de desejo do leitor é infinitamente mais abstrado. O que o atrai naquele livro? O que lhe faz mudar a página? E ainda, a pergunta que toda editora gostaria de saber responder racionalmente: por que comprar aquele livro, dentro de tantas opções? Se for capaz de responder a todas essas perguntas quando terminar a última página, parabéns, você é um bom crítico.


Mas e quanto aos outros leitores, qual será a justificativa deles? As respostas são múltiplas. Enquanto reconhecimento do autor, atratividade da linguagem e qualidade da narrativa são alguns deles, pertinência do assunto, representação na sociedade e timing são outros.


Por isso, como crítica, só posso ir tão longe quanto dizer o que aquele livro significa para mim, leitora, jornalista, carioca, jovem. Quanto ao gosto do público, bem, a isso basta dizer que Augusto Cury divide a lista dos mais vendidos com Stieg Larsson...


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

7 dias

A semana foi agitada. Teve onda gigante, mini tartaruga, lançamento de novos veículos, terremoto, premiação de comunicação e eleição de olimpíada. Ufa, cansou? Eu também. E acredite: tudo isso aconteceu em apenas sete dias.

A imprensa foi protagonista do agito. Nos bastidores, os lançamentos do Portal R7 e do jornal Brasil Econômico deram o que falar, inclusive aqui no blog. Na terça-feira, foi dia de Prêmio Comunique-se, o mais relevante do setor. Saíram do CredicarHall de prêmio em punho aqueles velhos conhecidos, Monica Bergamo, Luis Fernando Veríssimo e Artur Xexéo, e outros nomes expoentes do jornalismo brasileiro como Marcelo Tas, Tadeu Schmidt e Renata Vasconcellos.

Já nas capas de jornais, páginas da internet e mídias sociais, estavam as catástrofes naturais, cujas dimensões não alcançaram o Tsunami de 2004, por sorte, mas fizeram seus estragos. O mercado editorial também ficou eufórico com a divulgação dos vencedores do Prêmio Jabuti 2009. Na categoria Romance, não teve pra ninguém - deu Companhia das Letras em 1º, 2º e 3º lugares, com Moacyr Scliar encabeçando a lista. Mas o prêmio é abrangente, e deu para (quase) todo mundo tirar uma casquinha. Cosac Naify, Editora 34, Planeta e até a Record levaram jabutizinhos para casa. Não houve sinal da Rocco, nem Ediouro e Sextante. Os grandes vencedores, Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção, serão anunciados apenas dia 4 de novembro, na cerimônia oficial.

Mas a verdade é que o brasileiro não deu muita bola para nada disso, porque o grande evento da semana só aconteceria ao meio-dia desta sexta-feira, quando o COI escolheu a cidade para sediar as Olimpíadas de 2016. Corria pela mídia que as favoritas eram Rio e Chicago, e vale lembrar que esta última tinha a seu lado o casal-do-momento Barack e Michelle Obama, ambos originários da cidade. Apesar dos moradores de Chicago, em sua maioria, não apoiarem a candidatura da cidade, o país investiu pesado na campanha e até a Oprah foi parar em Copenhague para defender sua terra - ela também é de lá. Mas Brasil foi de Lula, Pelé e Paulo Coelho (!) e voltou vencedor. De manhã cedo, nosso presidente que não é nem de perto tão elegante ou eloquente quanto o deles, fez um discurso de emocionar até os mais incrédulos como eu (veja aqui). E assim, quando ninguém esperava, Chicago foi eliminada logo na primeira rodada de votos: a decisão ficara entre Rio e Madri. O resultado, todos já sabem. E a festa, mal começou.

Se de fato o Brasil está preparado para sediar uma Copa do Mundo (2014) e uma Olimpíada (2016), poucos temos conhecimento de causa para saber. Mas se aprendemos uma mesma lição com Lula e com Obama é que esperança é a última que morre. E assim, por conta dela, ficam meus votos para que nossa Cidade Maravilhosa saia desse evento ainda mais bonita, mais bem tratada, e mais bem vista.


Afinal, nós podemos. Certo, Obama?